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Por Melissa Cannabrava

“Meu lattes tem um buraco enorme em 2014 e 2015, mas não dá pra preenchê-lo colocando a certidão de nascimento delas! Mas eu já estou sem culpa alguma por isso, projeto tudo lá pra frente, daqui uns 15 anos. Que diferença vai fazer na minha vida ter uns 3 ou 4 artigos a menos? Deixar de ir a um congresso? Provavelmente nenhuma a longo prazo! Mas e a diferença em estar presente nos primeiros anos da vida delas? Os anos em que elas estão formando a visão de mundo, em que elas estão conhecendo quem é a mãe e a personalidade dela? Muita!!! Então eu optei por pegar mais leve nesses primeiros anos e não me arrependo em momento algum!! Tamo junta!”

Alguém mais se identifica? O comentário foi deixado em um texto publicado pela cientista Fernanda Staniscuaski, na rede social Facebook, em março de 2016. Na ocasião, a professora do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da UFRGS falou sobre maternidade e a decisão de ter dado uma

A luta pelo acesso ao conhecimento, o direito ao trabalho, a direitos humanos e à existência digna vêm desde a Antiguidade. Um exemplo disso é a matemática Hipátia de Alexandria (360 d.C. – 415 d.C), que viveu em Alexandria em um momento de auge intelectual, artístico e científico. É tida como uma grande pesquisadora de matemática e geometria, mas foi assassinada por ser pagã e defender o racionalismo científico. Em momentos mais recentes e atuais, vemos que, no Brasil, algumas mulheres começam a ter acesso ao sistema educacional somente a partir da década de 1950. (Foto: imagem do filme Alexandria)

pausa (longa) na loucura da vida acadêmica para se dedicar intensamente aos três filhos. O desabafo foi essencial para o surgimento do projeto Parent In Science, um movimento que iniciou com o intuito de levantar a discussão sobre o impacto dos filhos na carreira científica de mulheres e homens. Além disso, luta pelo direito de incluir o período da licença-maternidade no Currículo Lattes, plataforma que funciona como uma vitrine de trabalhos já realizados por pesquisadores em todo o país.

“A gente precisa de tempo para cuidar dos filhos e de tempo para produzir. A sociedade não aceita que a mulher escolha não ter filhos, mas ao mesmo tempo critica e não dá apoio. O que a gente pode fazer sobre determinados assuntos é mostrar o impacto da maternidade na área científica”, relata a bióloga. Ela conta que já perdeu o prazo de um edital, pois estava de licença-maternidade, e diz que a sociedade não está preparada para entender a vida pessoal das mulheres.  

O desafio durante o momento de isolamento social é conciliar o cuidado dos filhos com as demandas do home office, sem excluir afazeres domésticos e atividades escolares das crianças. O marido de Fernanda participa da divisão de tarefas, mas é uma exceção. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), divulgada pelo IBGE em 2017, mesmo quando as mulheres têm emprego, elas trabalham mais em casa do que os homens desempregados e são responsáveis por 30,5 milhões dos lares brasileiros, o que representa 28,5% do total.

Os efeitos dessa disparidade de gênero se refletem nos resultados da pesquisa realizada entre abril e maio deste ano pelo Parent In Science com cerca de 15 mil cientistas, entre discentes, pós-doutorandos e docentes, que responderam um levantamento sobre o impacto da pandemia na produtividade de cientistas no Brasil. Entre os docentes, quase 70% dos homens afirmaram ter conseguido submeter artigos científicos, como o planejado, durante o período de isolamento social. No entanto, este número cai para menos de 50% das mulheres.

Quando analisados os dados acima por gênero e parentalidade, considerando pessoas que estão conseguindo trabalhar remotamente, temos 36% de homens sem filhos e 32,8% de mulheres na mesma condição. Em relação aos pais e mães, a pesquisa relata que 17,4% dos homens estão sendo bem-sucedidos no trabalho remoto, contra 9,9% das mulheres.

Para entender melhor esta pesquisa, você pode assistir à live no canal do Youtube do Parent in Science no dia 30 de junho, às 17h, com a participação de Fernanda Staniscuaski, Letícia de Oliveira e mediação da física Eliade Lima.

Eliade, por exemplo, trabalha com a temática de mulheres cientistas há três anos e, atualmente, tem um grupo chamado Cientistas do Pampa, um projeto que vai a lugares de educação formal e não formal para divulgar as mulheres na ciência. Eliade foi convidada a participar do Parent In Science por meio de seu projeto, lutando contra os assédios moral e sexual dentro da Academia e ambientes de pesquisa. Madrasta de dois meninos, ela ainda não é mãe biológica, mas conta que passou por momentos difíceis com um dos enteados após um teste positivo para Covid-19.

“Ficamos todos em quarentena e, nesse período, consegui entender como é ser mãe e ficar com os filhos em casa. Imagino o quanto deve ser difícil passar por isso todos os dias. Eu já vivi um período de três meses com eles, mas, desta vez, com a pandemia, foi algo atípico. Passar dias com todos presos em casa, sem poder sair, tem toda uma tensão. Sempre fui do universo feminino, quando morava com a minha mãe e irmã, e nunca convivi com homens em casa durante tanto tempo. Entendi que tenho que me posicionar como mãe mesmo, e não apenas como amiga o tempo todo. Aqui sou a chefe da família junto com meu marido, e eles são como filhos”, relata.

A pressão individual é outro ponto destacado pela física, que é pós-doutora em astrofísica estelar. “Eu me sinto sobrecarregada por conta da autocobrança. Acredito que esse sentimento de ter que produzir tanto quanto as outras pessoas é muito difícil. Ainda mais quando a gente faz essa análise de dados, onde vemos a mulher sendo prejudicada nesse momento de pressão. Dentro da nossa sociedade machista patriarcal, vem como uma autocobrança. É cultural; Algo que não vem deles, os homens, mas de mim.”

Publicado em 26 de junho de 2020

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