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"A vida de Galileu" é uma das atividades teatrais analisadas no artigo publicado na revista "Ciência e Cultura". Foto: Renato Mangolin.

Por um lado, bate a saudade porque a “A vida de Galileu”, espetáculo sobre o famoso físico italiano, chega a sua última apresentação no Museu da Vida. Por outro, a estreia de “O problemão da banda infinita”, peça sobre o universo da matemática, já é ansiosamente aguardada. Aqui no Museu da Vida é assim: teatro e ciência estão juntos em diferentes produções, que buscam mexer com as emoções do público e despertar reflexões sobre variados temas, combinando divulgação científica com lazer cultural. Mas aqui no Museu teatro e ciência também estão juntos em projetos de pesquisa, com o objetivo de conhecer melhor quem está na plateia e como o espetáculo é recebido por esse público. Em parceria, profissionais das artes cênicas e pesquisadores trabalham para que a experiência oferecida aos visitantes seja cada vez melhor.

Estudos sobre teatro e ciência desenvolvidos pelo Museu da Vida, em conjunto com o Museu Ciência e Vida, resultaram em dois artigos recentes. Um deles foi publicado na revista “Ciência & Educação” (clique aqui para ler). O outro saiu na revista “Ciência e Cultura” (disponível aqui).

O espetáculo "O rapaz da rabeca e a moça Rebeca" aborda a prevenção do HIV/Aids e o preconceito em torno da doença. Foto: Peter Illiciev.

No primeiro artigo, os pesquisadores analisaram duas ações de teatro realizadas no Museu Ciência e Vida, localizado no município de Duque de Caxias (RJ): a peça “Rossum e Asimov” e uma visita teatralizada à exposição “A Herança da Terra: salvar o planeta do Pequeno Príncipe”. Na peça, em meio a caixas coloridas, tubos de ensaio e ideias mirabolantes, dois palhaços cientistas trabalhavam em um laboratório tentando fazer uma grande descoberta e inventar engenhocas. Já na visita teatralizada, um ator fazia o papel do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, autor de “O Pequeno Príncipe”, e, enquanto percorria a exposição, recitava trechos de livros e cartas e comentava os painéis da mostra, que discutiam o destino do homem e da Terra.

No segundo artigo, além dessas duas experiências do Museu Ciência e Vida, os pesquisadores analisaram também peças de teatro do Museu da Vida: “O rapaz da rabeca e a moça Rebeca”, que falava sobre HIV/Aids, abordando prevenção e preconceito; e “A vida de Galileu”.

Como se faz pesquisa sobre teatro e ciência?

Nesses estudos, foram utilizados métodos variados, como conversar com as equipes envolvidas na produção das atividades teatrais, acompanhar as apresentações e fazer consultas ao público, que foi solicitado a preencher questionários e participar de entrevistas.

No artigo da revista “Ciência e Cultura”, os pesquisadores explicam que cada procedimento metodológico permitiu coletar dados sobre diferentes aspectos das peças. “Por meio da ficha de observação, registramos as expectativas dos visitantes logo antes do início da peça, suas reações imediatas durante o espetáculo e as condições de recepção”, contam. “Com o questionário, verificamos o grau de satisfação dos espectadores com a peça, os pontos altos e baixos do espetáculo de acordo com sua avaliação e suas visões sobre os principais temas e mensagens da peça. Buscamos também compreender como diferentes fatores - sociodemográficos, hábitos culturais, entre outros - contribuíram para sua recepção do espetáculo”, comentam. “Por fim, as entrevistas realizadas após as apresentações nos permitiram explorar o contexto da visita, as motivações dos espectadores e seus conhecimentos prévios sobre a obra e os temas abordados”.

Desde o planejamento inicial dos estudos e, sobretudo, para embasar suas análises, os pesquisadores utilizam o que se denomina de “referencial teórico”, isto é, uma ideia ou conjunto de ideias de outros autores que ajudam a interpretar os dados coletados. Nas pesquisas sobre teatro e ciência, um dos principais referenciais teóricos utilizados tem sido o conceito de “capital cultural” do sociólogo francês Pierre Bourdieu.

“Capital cultural”

O “capital cultural”, de acordo com Bourdieu, pode ser incorporado, objetivado e institucionalizado. O capital cultural incorporado está relacionado ao domínio de linguagens e conhecimentos que permitem desenvolver o gosto pessoal e decifrar os códigos de acesso à cultura. Essa incorporação consiste em um processo demorado, que depende fortemente do meio familiar e seus valores, e também do nível de instrução.

Os bens culturais, como livros e quadros, representam o capital cultural objetivado. Para apropriar-se desses bens, segundo Bourdieu, não basta capital econômico. É necessário também capital cultural incorporado, isto é, é preciso ter aquele gosto aguçado e dominar aqueles conhecimentos que possibilitam apreciar melhor os bens culturais.

Por fim, diplomas e títulos seriam a expressão do capital cultural institucionalizado. “De acordo com Bourdieu, a escolaridade, a origem social e os valores familiares são determinantes para a aquisição de “capital cultural”, que está fortemente relacionado ao gosto e ao hábito de realizar programas culturais”, resumem os pesquisadores no artigo da revista “Ciência & Educação”.

Resultados iniciais

São muitos os dados, e as análises ainda estão em andamento, mas, ao que tudo indica, os museus de ciência, ao investirem em atividades teatrais com mote científico, estão contribuindo para enriquecer o capital cultural de seus visitantes. Essa contribuição é muito importante, especialmente quando as instituições estão localizadas em territórios carentes de opções de lazer cultural, caso do Museu da Vida e do Museu Ciência e Vida.

O público que participou das pesquisas, em geral, não tinha o hábito de ir ao teatro, mas gostou da experiência que teve nos museus, valorizando não só os temas das peças, como também seus recursos artísticos – humor, música e atuação dos atores. As atividades, portanto, envolveram o público e despertaram nele reações interessantes, reforçando que o teatro pode ser uma boa estratégia para a divulgação científica.

Entretanto, as reações do público e suas percepções sobre as peças, muitas vezes, não corresponderam às expectativas da equipe responsável pela produção dos espetáculos. Em “O rapaz da rabeca e a moça Rebeca”, por exemplo, a equipe imaginava que o tema do preconceito em relação ao HIV/Aids renderia mais debates, só que o público se interessou, principalmente, pelos aspectos médicos, do contágio ao tratamento. Essa diferença entre expectativa e realidade, porém, foi considerada positiva pelos pesquisadores, pois mostra que a plateia do teatro não é passiva.

A peça de teatro não é uma obra fechada. O público interpreta o espetáculo e dá sentidos a ele com base naquilo que é importante para sua vida, o que aponta para o potencial que o teatro tem de convidar a refletir criticamente sobre a ciência. “Por meio do teatro tem sido possível abordar temas complexos da ciência de forma mais envolvente. O teatro também tem permitido tratar aspectos da ciência pouco abordados em atividades tradicionais de divulgação, como seu lado controverso, ético e político, bem como tem possibilitado explorar o lado mais humano dos cientistas, com seus dilemas e conflitos pessoais, raramente expostos ao público”, lembram os pesquisadores no artigo da revista “Ciência & Educação”.

 

Publicado em 27/07/2018.

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