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Foto: Flávia Braga. Acervo Museu da Vida

A necessidade de desinfectar ambientes e objetos já vem de longa data... Este tio-avô distante do nosso conhecido fumacê é um exemplo disso. Enquanto o fumacê é um pulverizador, o aparelho de desinfecção por formaldeído de Hoton é um vaporizador que foi muito importante para a prevenção na disseminação de doenças contagiosas na época de Oswaldo Cruz. Quer saber como? Descubra no novo artigo do Objeto em Foco!

 

O aparelho de desinfecção por formaldeído de Hoton

O aparelho Hoton, desenvolvido pelo doutor Lucien Hoton e construído por Geneste, Herscher e Cia., foi um aparelho produtor de vapor de água, carregado de formaldeído, mais conhecido popularmente hoje como formol. Muito utilizado entre a virada dos séculos 19 e 20, era composto por uma caldeira, feita em cobre estanhado, cuja tampa, fechada por porcas borboletas, trazia um tubo de vidro onde se movia a haste de um flutuador, um manômetro e um tubo flexível. Através desse tubo, a mistura desinfetante de formol e vapor de água era liberada nos ambientes domiciliares e sobre os objetos dos portadores de doenças contagiosas de notificação obrigatória, como a febre amarela e o cólera.

A caldeira ficava instalada sobre um invólucro feito de chapa metálica, que prevenia a dispersão do calor. O aquecimento da caldeira do aparelho e a produção do vapor de formaldeído eram obtidos por meio de uma lamparina com queimadores do tipo Primus.

A solução utilizada no aparelho de Hoton era uma mistura de formaldeído com água. Essa solução era usada na desinfecção de lençóis, vestimentas, roupas de cama e banho, objetos e utensílios utilizados pelo paciente, e também em paredes, pisos e móveis. O formaldeído não deteriorava as cortinas, tapetes, tecidos de lã, seda ou algodão. Mesmo aquecido, seus vapores não prejudicavam a integridade do couro ou da borracha. Nem mesmo os metais sofriam alterações ao entrar em contato com a substância. Também conhecido como formol, formalina, aldeído fórmico, aldeído metílico e metanal, foi o desinfetante gasoso mais utilizado nas desinfecções de superfícies após 1888, quando Trillat descobriu as propriedades antissépticas deste gás.

“Higiene em polvorosa”. A charge de O Malho, em 15 de abril de 1905, representa a febre amarela esquelética surpreendendo um Oswaldo Cruz de cabelos arrepiados, enquanto, ao fundo, são feitas fumigações e vaporizações desinfectantes. Crédito: Acervo DAD/COC

Para que um ambiente fosse eficazmente desinfetado por vapores de formaldeído, o local deveria ser hermeticamente fechado e os objetos a serem desinfetados deveriam ficar dispostos de modo a que todas as suas superfícies fossem expostas ao gás. Com o aparelho de Hoton posicionado do lado de fora do ambiente a ser desinfetado, o volume da solução de formaldeído era introduzido na caldeira superior, o flutuador era colocado, a tampa fechada e o tubo flexível de cobre fixado. Em seguida, era introduzido no local onde ocorreria a liberação do vapor desinfetante por um período determinado em função da área e dos volumes a serem desinfectados.

A empresa fabricante do aparelho de Hoton, a francesa Etablissments Geneste, Herscher et Cie, foi uma importante produtora de equipamentos destinados a engenharia sanitária, incluindo aparelhos fixos e móveis para saneamento, desinfecção, aquecimento e ventilação. Entre as últimas décadas do século 19 e as primeiras do século 20, os produtos Geneste Herscher estiveram em pleno uso nos principais serviços de higiene e profilaxia, em hospitais, asilos, sanatórios e demais instituições de saúde, tanto na capital, Paris, como nas maiores cidades francesas, sendo também encontrados mundo afora, a exemplo do Brasil.


A desinfecção ao longo da história

O objetivo da desinfecção, tal como defendiam os tratados do início do século 20, era a destruição ou neutralização das causas das infecções, tornando inofensivos os microrganismos patogênicos disseminados no solo, no ar, na água, nos resíduos vivos e em tudo o que se relacionava aos objetos das pessoas doentes. A desinfecção desempenhava um papel essencialmente preventivo e profilático, reduzindo a virulência dos microrganismos, impedindo que sobrevivessem e se multiplicassem.

Um agente físico ou químico era considerado desinfetante ou germicida quando possuía a propriedade de destruir os microrganismos e seus esporos. Na antiguidade, as primeiras práticas de desinfecção consistiam em queimar plantas aromáticas e madeiras resinosas. Acreditava-se que a fumaça perfumada que elas liberavam possuía a propriedade de purificar o ar corrompido das cidades, especialmente em tempos de epidemias. Os gregos dos tempos de Homero já conheciam as propriedades desinfetantes do enxofre, usado na fumigação para eliminar maus odores ou durante a realização de ritos religiosos.

Os egípcios também conheciam as propriedades conservantes e desinfetantes dos produtos resultantes da destilação da madeira, utilizados no embalsamamento dos mortos. O cedrium, por exemplo, era um líquido que continha creosoto, que é um dos melhores agentes para a preservação da matéria animal.

Muito tempo depois, no final do século XVIII, o francês Guyton de Morveau experimentou a fumigação pelo gás de ácido clorídrico. Sua primeira observação prática, feita em 1773, ocorreu durante os trabalhos de desinfecção das tumbas da igreja matriz da cidade de Dijon. Em 1780, os ingleses realizaram fumigações com vapores de ácido nítrico em hospitais de Winchester e em navios da esquadra britânica.

Ao longo do século XIX, os avanços da química moderna tornaram possível descobrir e experimentar novas substâncias desinfetantes, com resultados mais eficazes. Entre 1832 e 1834, foram descobertos o iodofórmio e o ácido carbólico. Em 1839, uma solução alcoólica de iodo foi usada como antisséptico. 20 anos depois, na década de 1860, o cloreto férrico passou a ser utilizado para combater as infecções purulentas e desinfetar ambientes hospitalares. Por muito tempo, os diversos agentes desinfetantes foram utilizados de modo empírico. Somente após os trabalhos de Pasteur (1822-1895) e de seus alunos é que a desinfecção passou a ser aplicada cientificamente.


A Inspetoria de Isolamento e Desinfecção na luta contra as doenças infectocontagiosas

A prática da desinfecção, de acordo com modernos preceitos científicos, foi adotada de modo sistemático no Brasil, notadamente em São Paulo e no Rio de Janeiro, ao longo da década de 1890 e nos anos iniciais da década de 1900. Em São Paulo, um Desinfectório Central, ligado à Inspetoria de Profilaxia de Moléstias Contagiosas, foi criado em 1893. O objetivo era realizar as desinfecções dos domicílios onde fossem identificados casos de doenças contagiosas, remover as pessoas infectadas para hospitais e proceder a desinfecção, em sua sede, dos objetos que tivessem sido utilizados pelos doentes.

Equipamentos de desinfecção portáteis e montados sobre veículos, dispostos no pátio do Desinfectório Central de São Paulo. Crédito: Autor desconhecido. Fonte: Acervo DAD/COC

No Rio de Janeiro, então capital da República, foi criada a Inspetoria de Isolamento e Desinfecção, subordinada à Diretoria Geral de Saúde Pública, a partir de 1897. A Inspetoria era responsável pelos trabalhos de isolamento em domicílio dos doentes de moléstias de notificação obrigatória, remoção para hospitais daqueles doentes que não pudessem se manter em suas casas, além de desinfecção dos locais e ambientes - incluindo prédios, casas, cômodos e objetos que tivessem estado em contato com os doentes, além do serviço de extermínio de ratos para controle da peste.

A sede da Inspetoria de Isolamento e Desinfecção e o moderno desinfetório por ela utilizado foram instalados no conjunto predial projetado pelo arquiteto Luiz de Moraes Júnior e construído em Botafogo durante a gestão de Oswaldo Cruz na Diretoria Geral de Saúde Pública. Dirigida por um médico inspetor, possuía pessoal administrativo e técnico: médicos, um engenheiro responsável por todos os equipamentos usados nas desinfecções, cocheiros, maquinistas, além de turmas de desinfetadores treinados.

Os equipamentos usados nas rotinas de desinfecção incluíam os carros equipados com pulverizadores móveis à vapor da marca Geneste, Herscher e Cia., aparelhos Trillat, Lingner, Schering e Hoton, para desinfecção a formol, estufas fixas e móveis, também de Geneste, Herscher, que produziam vapor de água sob pressão. Havia ainda variada gama de meios de transporte, como ambulâncias para doentes, carros para remoção de cadáveres e charretes (tilburis e vitórias) para o transporte dos médicos.


Informações técnicas do objeto:

Materiais: metais (ferro, cobre, estanho) e madeira

Dimensões: 56 cm x 21 cm (diâmetro)

Fabricante: Geneste, Herscher e Cia.

Origem: França

Data: [1900]

Procedência: Instituto Oswaldo Cruz/Divisão de Microbiologia e Imunologia


Referências:

BARBOSA, Plácido, REZENDE, Cassio. Os Serviços de Saúde Pública no Brasil – Especialmente na cidade do Rio de Janeiro, de 1808 a 1907 (Esboço histórico e legislação). Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1909

BENCHIMOL, Jaime L. Febre amarela e cólera na era das desinfecções. In: Dos micróbios aos mosquitos: febre amarela e revolução pasteuriana no Brasil [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ/Editora UFRJ, 1999

BRAZIL MÉDICO. Correspondência. Carta de Paris, n° 23, ano XVI, 1 de agosto de 1902, p. 321-323. Disponível em: http://memoria.bn.br/pdf/081272/per081272_1902_29-00032.pdf

COREIL, François, DEVILLE, Victor. Traité de Désinfection. Paris, Libraire Medicale et Scientifique Jules Rousset, 1911

GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Regulamento para o Serviço Geral de Desinfecções. São Paulo, Tipografia do Diario Official, 1894


Créditos:

Objeto em Foco é um produto de divulgação do acervo museológico sob a coordenação de Inês Santos Nogueira e Pedro Paulo Soares

Serviço de Museologia - Museu da Vida Fiocruz


Publicado em 15 de setembro de 2023.

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