Por Pedro Paulo Soares, Inês Nogueira e Maria Alana Alves Rodrigues

Uma frase muda o fim do filme. No caso do nosso Objeto em Foco de hoje, essa medalha mudou nossa instituição, primeiramente, de forma simbólica. O ano de 1907 representou um importante marco para a história do Instituto Soroterápico Federal: a instituição, então dirigida por Oswaldo Cruz, conquistou a Medalha de Ouro relativa ao prêmio pelo primeiro lugar na Exposição de Higiene. A exposição foi realizada no XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia, organizado na cidade de Berlim, na Alemanha.
A medalha foi entregue a Oswaldo Cruz pela imperatriz da Alemanha, Augusta Vitória de Schleswig-Holstein (1858-1921). Tamanha honra foi proporcional ao mérito brasileiro ao fazer uma excelente apresentação da produção científica brasileira, resultado dos relevantes trabalhos desenvolvidos pelos jovens pesquisadores de Manguinhos e pela campanha contra a febre amarela no Rio de Janeiro.
Na Exposição de Higiene de Berlim, a seção brasileira apresentou três salas de exposições: uma dedicada ao projeto de profilaxia da febre amarela, dirigida por Oswaldo Cruz enquanto chefe da Diretoria Geral de Saúde Pública na cidade do Rio de Janeiro, em 1904; a segunda, com imagens e estatísticas demográfico-sanitárias da cidade, então capital do país; e a terceira dedicada a projetos, fotografias dos prédios projetados para o campus de Manguinhos e produtos biológicos fabricados no Instituto, como soros e vacinas. Além disso, foram exibidos materiais sobre as campanhas sanitárias na capital federal, conduzidas pela Diretoria Geral de Saúde Pública, incluindo modelos para isolamento de doentes, técnicas de expurgo de casas e galerias pluviais.

Em 27 de setembro de 1907, foi publicado nos jornais o telegrama enviado por Oswaldo Cruz ao ministro da Justiça e Negócios Interiores informando sobre o êxito em Berlim: “Tenho a satisfação de levar ao conhecimento de V. Excia. que o jury da Exposição de Hygiene conferiu ao Brasil o primeiro premio, constante da grande medalha de ouro offerecida pela imperatriz. Congratulações respeitosas”.
O Brasil foi o único país da América do Sul a se inscrever no evento. A participação brasileira aconteceu graças os laços de cooperação estabelecidos por Oswaldo Cruz e Henrique da Rocha Lima com importantes institutos europeus de medicina experimental. A familiaridade de Rocha Lima com os organizadores do Congresso favoreceu a obtenção de um espaço nobre na exposição, no qual o numeroso material representativo da ciência nacional foi distribuído por três amplas salas, organizadas por Luiz de Moraes, arquiteto construtor de Manguinhos, foi distribuído.
Segundo registros de época, o público visitante se interessou especialmente pelos materiais relativos às doenças tropicais, como exemplares da fauna entomológica e desenhos científicos dos insetos transmissores de doenças, além de peças de anatomia patológica registrando lesões provocadas pela febre amarela e pela peste bubônica.
Entre os trabalhos científicos do Instituto Soroterápico Federal, apresentados no congresso, repercutiu o de Henrique Aragão, “Ciclo evolutivo do halterídio do pombo”, considerada uma importante contribuição para a compreensão do modo como a malária e outras doenças evoluíam no organismo humano.

Ao fim da exposição, Oswaldo Cruz doou parte dos materiais exibidos a instituições científicas europeias. Um armário foi presenteado ao Dr. Hoffmann, descobridor do micróbio da sífilis, outro à Academia de Medicina Frederico Guilherme, responsável pela organização da exposição. O material sobre a febre amarela foi para o Instituto de Higiene de Ficker e Rubner, ao passo que outros seguiram para a Escola de Medicina Tropical de Hamburgo, para a Escola de Medicina Tropical de Londres e para Heidelberg.

O prêmio da Exposição de Berlim, conquistado por avaliação de um júri altamente competente, causou grande repercussão no Brasil. Tal reconhecimento por autoridades da comunidade científica internacional contribuiu para legitimar o projeto e as ações de saneamento da capital e demais cidades do país, idealizados por Oswaldo Cruz e pelos serviços sanitários regionais, sempre questionados pela população. Apenas 3 anos após a Revolta da Vacina, a imagem de Oswaldo e do Instituto nos jornais e periódicos da época passa a ser mais paternal, muito diferente do vilão aliado dos ratos e mosquitos que as charges geralmente retratavam. O prestígio conquistado em Berlim alimentou o discurso patriótico das elites nacionais, transformando a imagem de Oswaldo Cruz: de “general mata-mosquitos” autoritário a herói nacional, inspirando maior confiança na cultura científica.
O projeto de lei que transformaria o Instituto Soroterápico em Instituto de Patologia Experimental foi rapidamente aprovado após a premiação. Meses depois da aprovação, em março de 1908, a instituição foi renomeada como Instituto Oswaldo Cruz. Com a mudança de nome e repercussões positivas das premiações, o Instituto mudou completamente por dentro: o quadro de funcionários aumentou, pesquisas foram ampliadas e obtiveram maior maior autonomia administrativa e financeira. Enfim, o que iniciou como um reconhecimento simbólico desencadeou transformações estruturais tão profundas que a medalha se revela como um documento importantíssimo.
Hoje essa honraria, junto de outras, está sob a guarda do Serviço de Museologia. Para garantir que esse item continue visível por mais 100 anos, a equipe se dedica em manter a medalha em local adequado e conservado com materiais e técnicas específicos para retardar ao máximo uma deterioração futura (ou minimizar a deterioração já em curso). Quem sabe esse empenho diário em manter vivo o nosso patrimônio também seja reconhecido e a equipe conquiste sua própria medalha um dia? Não custa sonhar! Esse cuidado é mais uma parte do serviço de excelência que a Fiocruz entrega à sociedade desde sua fundação.
Informações técnicas do objeto:
Medalha da Exposição de Higiene do XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia
Local: Berlim
Ano: 1907
Material: ouro
Autores: Uhlmann SC. e G. Loos D. Kruger F.
Dimensões: 5,8 cm de diâmetro
Coleção: Oswaldo Cruz
Procedência: Museu Oswaldo Cruz
Acesse na Base Museu: https://basemuseu.coc.fiocruz.br/inweb/ficha.aspx?id=1781&ns=216000&Lang=BR
Referências:
BENCHIMOL, Jaime Larry. Manguinhos do Sonho a Vida: a ciência na Belle Époque. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1990.
DE REZENDE, Joffre Marcondes. 43. Rocha Lima, Embaixador da Medicina Científica Brasileira.
DANIEL-RIBEIRO, Cláudio Tadeu; SAVINO, Wilsonq. O Instituto Oswaldo Cruz: 115 anos de ciência para a saúde da população Brasileira. Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, v. 13, p. 103-109, 2014.
GUERRA, Egydio Salles. Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro: Vecchi, 1940.
Créditos:
SOARES, Pedro Paulo; NOGUEIRA, Inês Santos; RODRIGUES, Maria Alana Alves. Objeto em Foco: Medalha da Exposição de Higiene do 4º Congresso Médico Latino-Americano. In: Museu da Vida Fiocruz.
Atualizado em 15 de maio de 2026.


