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Um item do acervo do Museu da Vida Fiocruz ilustra muito bem a maneira com que Oswaldo Cruz lidava com as críticas ao seu trabalho à frente das estratégias de saúde do Brasil no início do século XX. Este cartão-postal, assinado pelo sanitarista e leiloado em um evento beneficente em maio de 1904, é o segundo Objeto em Foco da série ‘Coisas de Oswaldo’. A iniciativa apresenta três itens pessoais de Oswaldo Cruz em comemoração aos 150 anos de seu nascimento, celebrado em 5 de agosto, Dia Nacional da Saúde.

Assinado por Oswaldo Cruz e emoldurado em porta-retrato de prata, o cartão postal evidencia uma singela resposta do médico às críticas que recebia à época, tanto da imprensa quanto da classe médica, motivadas pelas campanhas sanitárias que ocorriam na região central do Rio de Janeiro.

O cartão da foto foi oferecido por Manoel de Souza Gomes ao Museu Oswaldo Cruz em 1923, na ocasião de sua aposentadoria. Gomes foi zelador durante os primeiros anos de atividade do Instituto Oswaldo Cruz e se tornou um importante comerciante no negócio de aparelhos de vidro.

A imprensa usou o humor para expor a insatisfação causada pelas reformas sanitárias no início do século XX. Na imagem, Oswaldo Cruz representado sob a forma de mosquito, montado em uma seringa e olhando para Cuba, de onde provinha a “teoria havanesa”, que afirmava serem os mosquitos os transmissores da febre amarela. Revista Tagarela, 1903. Acervo: Biblioteca Nacional

Em 1903, ao assumir a Diretoria Geral de Saúde Pública (cargo equivalente ao de ministro da saúde), Cruz se inspirou no êxito das campanhas realizadas em Cuba, que comprovaram o acerto da teoria do médico Carlos Finlay. Finlay acreditava que o transmissor da febre amarela era o mosquito Stegomyia fasciata, hoje conhecido como Aedes aegypti.

Para combater os vetores transmissores (sim, o mosquito!), Oswaldo Cruz estruturou a campanha contra a febre amarela em moldes militares. A polícia sanitária adotou medidas rigorosas contra a doença, que incluíam a limpeza de calhas e caixas d’água, o expurgo de casas com vapor de piretro e gás sulfuroso, o isolamento de doentes, além de multas e intimações aos proprietários de imóveis insalubres.

Diante de medidas tão impopulares, o cientista não foi poupado pela imprensa. Charges, caricaturas e canções com letras maliciosas ridicularizaram suas ações, misturando humor à indignação popular.


O leilão do cartão-postal

Durante o auge de sua impopularidade, entre 1903 e 1904, foi realizado no Passeio Público uma festa de caridade em que foram convidadas as principais personalidades da elite carioca, com grande cobertura da imprensa. O grupo que organizou o evento, como forma de angariar donativos, pediu para que os cavalheiros de destaque escrevessem mensagens nos cartões postais que lhes eram apresentados. Oswaldo Cruz, assim como outros convidados, deixou uma mensagem em um cartão por ele assinado.

O dia deveria terminar com um leilão dos postais autografados. Uma senhora lia as mensagens em voz alta, até o momento em que chegou o postal em que o médico havia escrito: “O Stegomyia fasciata é o único transmissor conhecido da febre amarela. Maio de 1904 – Gonçalves Cruz”. Manifestações de desaprovação e zombaria tomaram conta do pregão até que um amigo do médico arrematou o cartão postal.

Com humor, o cientista aproveitou a oportunidade festiva para divulgar seu credo científico, mesmo em um ambiente hostil.

Informações técnicas sobre o objeto:

Cartão postal

Material: metal, vidro, papel, mármore, veludo
Local: Brasil
Dimensões: 23 x 15 x 9 cm

Bibliografia e fontes:
BRITTO, Nara. Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1995.
GUERRA, E. Sales. Osvaldo Cruz. Rio de Janeiro: Vechi, 1940.

Créditos:
Objeto em Foco é um produto de divulgação do acervo museológico sob a coordenação de Ines Santos Nogueira e Pedro Paulo Soares
Serviço de Museologia - Museu da Vida Fiocruz

Atualizado em  16 de agosto de 2022.

 

 

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