Por Jannah Guató e João Ticuna

O Acampamento Terra Livre (ATL) 2026 encerra mais uma edição reafirmando seu papel como a maior mobilização indígena do Brasil. O encontro, que ocorreu entre os dias 5 e 11 de abril, reuniu milhares de parentes (indígenas) de diferentes povos, territórios e biomas, transformando Brasília (DF) em um espaço de articulação política, resistência e construção coletiva. O Museu da Vida Fiocruz acompanhou essa semana intensa, a partir do olhar dos comunicadores indígenas Jannah Guató, produtora cultural, comunicadora e ativista, e João Ticuna, antropólogo e pesquisador do Museu Nacional (MN-UFRJ). Confira alguns dos principais destaques do ATL 2026!
O encontro, que foi organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), contou com a participação de várias organizações como a APOINME (Articulação dos povos indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), Arpin Sudeste (Articulação dos Povos Indígenas da Região Sudeste), Arpin Sul (Articulação dos Povos Indígenas do SUL, Comissão Guarani Yurupa, Conselho Terena, Coiab (Coordenação das organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e Aty Guasu ( Grande Assembleia do Povo Guarani e Kaiowá). Diversas organizações estudantis universitárias também estiveram presentes no ATL 2026, com o número de CEIS (Coletivos Estudantis Indígenas) que participaram da atividade superando o quantitativo dos anos anteriores.
Com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, a 22ª edição do ATL reuniu entre 7 e 8 mil participantes, segundo dado dos organizadores. A programação contou com diversas plenárias que discutiram pautas como a demarcação e a proteção territorial, educação escolar indígena, saúde dos povos indígenas, entre outras temáticas importantes. O encontro também possibilitou o compartilhamento de saberes, línguas e experiências, formando redes de apoio e reafirmando o ATL como território de resistência, encontro e continuidade das lutas indígenas.
Marcha como expressão de luta
Um dos momentos centrais do ATL 2026 foi a marcha dos participantes até a Esplanada dos Ministérios. Com faixas, cartazes, pinturas corporais e acessórios ornamentais, parentes indígenas levaram pautas, entoando cantos, rezas, danças e movimentos rituais.
Teve também rufar de tambores, instrumentos de sopro e exibição de alguns elementos da cultura de diferentes povos indígenas como das mulheres Xikrin e Kayapó.
A ação mostrou o poder da ancestralidade para reclamar direitos negados, transformando as ruas em espaço de denúncia, afirmação e protagonismo.
Mineração, saúde, educação e outros temas
O ATL 2026 também foi palco de muitos debates. Uma das sessões de destaque abordou os impactos da mineração em territórios indígenas. Lideranças denunciaram casos de contaminação, expulsão de comunidades e violência associada à exploração de recursos naturais, incluindo ferro, ouro, lítio e petróleo. As discussões evidenciaram a urgência de medidas de proteção e o fortalecimento das ferramentas jurídicas e políticas na defesa dos territórios.
Também houve discussão acerca da saúde indígena. O tema foi abordado de forma ampliada, considerando a relação direta entre saúde e território, cultura e modos de vida. Sob a perspectiva do bem viver, lideranças destacaram a importância de políticas públicas que respeitem as especificidades dos povos indígenas e que garantam acesso à saúde de qualidade, articulada às realidades dos territórios.

A educação também foi apontada como eixo fundamental para o fortalecimento das futuras gerações. As discussões ressaltaram a importância de uma educação indígena diferenciada, que valorize línguas, culturas e conhecimentos tradicionais, contribuindo para a autonomia dos povos e a continuidade de seus modos de vida.
Ainda no campo da educação, outro aspecto importante discutido em plenária foi a criação da primeira Universidade Federal Indígena (Unind) do Brasil, cujo Projeto de Lei 6132/25 já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e, atualmente, tramita no Senado federal. O Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI), educadores indígenas de todo o país, representantes do Ministério da Educação e da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi) debateram o assunto e ouviram anseios da plateia, voltados principalmente para o desejo de ter uma política mais transparente e participativa.
Durante o encerramento das atividades do ATL 2026, houve a leitura do documento final do encontro, que sintetiza os principais encaminhamentos, denúncias e propostas construídas ao longo dos dias de mobilização. Entre os principais tópicos abordados na carta, estão a urgência da demarcação territorial e a busca do bem viver.
Protagonismo indígena
A presença de comunicadores indígenas nesse grande espaço de mobilização dos povos originários reforça a importância de narrativas construídas a partir dos próprios povos. A atuação na comunicação amplia a visibilidade das pautas e contribui para uma produção de conhecimento comprometida com a escuta, a diversidade e o respeito às realidades indígenas. Mais do que registrar, o ato de comunicar também se configura como prática política e ferramenta de fortalecimento das lutas.
A cobertura do ATL 2026 conduzida pelos comunicadores indígenas Jannah Guató e João Ticuna para o site e redes do Museu da Vida Fiocruz e para o site Invivo foi organizada pela educadora do Museu Paula Bonatto.
A inciativa fez parte da ação ‘Saúde indígena: trocas de saberes por uma aliança pelo bem viver’, promovida pelo MVF e pela Cátedra Oswaldo Cruz de Ciência, Saúde e Cultura, da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), e integra o 2º Abril Indígena da Fiocruz. A atividade conta com financiamento da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) da Fiocruz.
*Crédito das fotos: Jannah Guató, Paula Bonatto e João Ticuna.
Publicado em 15 de abril de 2026.


