Por Maria Alana Rodrigues e Inês Nogueira

Dizem que o que olhos não veem, o coração não sente... Mas, às vezes, ele pode dar sinais! O nosso Objeto em Foco de hoje nos ajuda a entender mais sobre a atividade elétrica desse órgão. Estamos falando do eletrocardiógrafo, um instrumento que registra os sinais elétricos do coração na forma de um gráfico. O aparelho avalia o ritmo e a velocidade dos batimentos cardíacos, se esses parâmetros estão regulares ou não e com que intensidade os sinais elétricos passam por cada parte desse órgão.
Hoje em dia, o seu uso em exames está relacionado a investigação da anatomia, lesões e outras alterações cardíacas possivelmente patológicas. Mas será que o modo de usar o aparelho é o mesmo de 70 anos atrás? De onde essa tecnologia veio? E como os profissionais da saúde do Brasil o utilizaram no passado?
História da eletrocardiografia
A invenção do eletrocardiógrafo está conectada com os avanços de estudos tecnológicos sobre a eletrofisiologia – campo que investiga características e propriedades elétricas de células e tecidos vivos, essenciais para o funcionamento de órgãos como o cérebro e o coração.
O primeiro eletrocardiograma humano foi registrado pelo fisiologista Augustus D. Waller (1856-1922) no final do século 19. Ele conectou eletrodos no tórax e observou que cada batimento cardíaco era acompanhado por uma oscilação elétrica. Waller demonstrava seu método de eletrocardiograma em salas de aula e congressos e, assim, inspirou estudos complementares, como o de Wilhelm Einthoven (1860-1927).
Em função das limitações dos estudos eletrofisiológicos, este médico desenvolveu o galvanômetro de corda para conseguir um cálculo mais aproximado dos movimentos cardíacos. Para isso, foi fundamental a invenção do galvanômetro pelo físico francês Arsène D`Arsonval (1851-1940), em trabalho independente.
No projeto de Einthoven, as correntes elétricas do coração eram transportadas por um fio condutor de vidro revestido de prata, entre dois eletroímãs. O movimento do fio, resultante das mudanças nas correntes elétricas, era transcrito para uma placa fotográfica que produzia registros semelhantes às dos eletrocardiogramas modernos, embora o aparelho de Einthoven ocupasse um cômodo inteiro – pesava quase 300kg. Em 1924 ganhou o prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina.


O estudo do ritmo cardíaco, antes da eletrocardiografia, era realizado com o auxílio do esfigmógrafo, instrumento que media os impulsos produzidos por vasos ou pela própria parede do tórax. Os estudos de Lewis com o galvanômetro de corda foram convincentes a ponto de concluir que a fibrilação atrial era uma condição comum em humanos e, assim, o eletrocardiógrafo foi cada vez mais reconhecido e aceito nas práticas de saúde.
No caso do nosso Objeto em Foco, o eletrocardiógrafo da Cambridge Instrument Company apresentava especificidades: a partir da captação dos sinais elétricos do coração pela máquina, vinha a transcrição desses movimentos cardíacos por “direct-writing” (escrita direta, em tradução livre). Isto é, houve uma substituição da placa fotográfica pela caneta, que operava na parte inferior do aparelho com válvulas e rolos, disponibilizando os resultados do paciente instantaneamente. A inovação desse modelo, para além de sua rapidez, era o seu peso reduzido, de pouco mais de 11 Kg.

Uma agulha elétrica aquecida riscava um rolo de papel giratório. O calor da agulha controlava a espessura da tinta, e o seu movimento seguia um ritmo elétrico para marcar o tempo. Com essas marcas, era medida a velocidade precisa no papel. A época estimada do uso desse aparelho é a década de 1950, uma vez que o fabricante (Cambridge Instruments Co. Inc.) só começou a produzir esse modelo específico nessa mesma década e o comerciante que o comprou para vender no Brasil foi a empresa Ambriex, S. A., do Rio de Janeiro, fundada apenas em 1955.
Médicos brasileiros e eletrocardiografia
Entre as décadas de 1930 e 1940, ocorreu um boom de especialistas em doenças do coração no Brasil. Eram oferecidos cursos de especialização, serviços de cardiologia eram consolidados dentro dos hospitais, debates sobre a inclusão de disciplinas para o ensino de cardiologia aconteciam nas faculdades de medicina, intercâmbios com os Estados Unidos eram promovidos... Tudo isso era destacado em periódicos de época e discursos presidenciais. Mas por que esse interesse repentino pela cardiologia?
Nessa época, o país era comandado pelo presidente Getúlio Vargas (1882-1954) e a eletrocardiografia foi fortemente difundida nos debates sobre a saúde do trabalhador que, começava a ter seus direitos reconhecidos de forma legal. A criação do Ministério da Educação e Saúde e o discurso reformista de Vargas combinavam com a propagação de tecnologias inovadoras como o eletrocardiógrafo. As doenças do coração eram consideradas “doenças da civilização”, associadas ao estresse da “vida moderna” e às condições de trabalho nas cidades.

O intercâmbio com os Estados Unidos, durante o governo Roosevelt (1933-1945), também foi essencial para a divulgação dessa tecnologia no Brasil. A vinda do cardiologista estadunidense Frank Norman Wilson (1890-1952) para ministrar um curso intensivo de eletrocardiografia aconteceu justamente a partir dessas dinâmicas acadêmicas, políticas e diplomáticas.
Não por acaso, nessa mesma época havia também maior atenção à saúde da criança, repleta de novidades tecnológicas do campo médico. Assim como a cardiologia, a pediatria era vista como um caminho para a construção de um novo país e um futuro mais moderno. O Estado responsabilizava a família pela saúde de seus membros, reforçando práticas educativas em saúde. Nessa perspectiva, propagava-se a ideia de que a origem das doenças residia, então, na ignorância e na negligência dos indivíduos, mas os aspectos socioeconômicos não eram abordados nem na mídia, nem nos materiais educativos.
Figura 6. O Brasil caminha pelos pés das crianças. Crédito: A Gazeta Infantil, 05 de setembro de 1929, pg. 01.Trajetória do objeto
No eletrocardiógrafo que está sob a guarda do Museu da Vida Fiocruz, há uma etiqueta colada ao estojo do aparelho que diz, em letra cursiva: “Este eletrocardiógrafo é propriedade particular do Prof. RACHID, usado em aulas de demonstração de BIF”. Essa referência nos leva a hipótese de que esse aparelho era usado para fins pedagógicos pelo professor Jamil Rachid (1923-2016), um acadêmico de medicina especializado em cardiologia que atuou no Hospital Nossa Senhora das Vitórias do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS). Além disso, foi docente em cursos de graduação e pós-graduação de diversas universidades no Rio de Janeiro.

Esse e outros objetos relacionados à saúde da criança foram doados ao Museu da Vida Fiocruz em 2025, pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Instituição sem fins lucrativos que defende o interesse de pediatras, crianças, adolescentes e suas famílias desde 1910, a SBP criou o Memorial da Pediatria Brasileira Lincoln Freire em 2004, no Rio de Janeiro. O acervo reunia documentos, fotografias, objetos e painéis sobre a formação das primeiras instituições pediátricas, o avanço das práticas clínicas e a atuação de profissionais que marcaram gerações. A sede física do acervo foi desativada em 2017 e hoje podemos visitar o Memorial em ambiente virtual.
Apesar de ser um objeto incapaz de ler os sentimentos humanos atribuídos ao coração, o eletrocardiógrafo provou cientificamente o que os músicos já sabiam: assim como toda canção tem sua batida, o coração tem o seu próprio ritmo! Gostou do texto? Compartilhe com quem você já sabe que é apaixonado pela história da ciência e da saúde!
Informações técnicas do objeto:
Objeto: Eletrocardiógrafo - "Simpli-Scribe" Portable Model Cambridge Electrocardiograph
Fabricante: Cambridge Instruments
Origem: Rio de Janeiro, Brasil
Época: década de 1950
Material: madeira, baquelite, plástico, metal, borracha, vidro, papel, feltro, caneta esferográfica, grafite, tinta
Dimensões: 45 x 26 x 36,5 cm (aberto)
Procedência: Sociedade Brasileira de Pediatria
Acesse na Base Museu: https://basemuseu.coc.fiocruz.br/inweb/ficha.aspx?id=3181&ns=216000&Lang=BR
Referências:
FONSECA, Cristina M. Oliveira. A saúde da criança na política social do primeiro governo Vargas. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 3, p. 97-116, 1993. Disponível em: https://www.scielosp.org/pdf/physis/1993.v3n2/97-116/pt
GIFFONI, Rodrigo Tobias; TORRES, Rosália Morais. Breve história da eletrocardiografia. Revista Médica de Minas Gerais, v. 20, n. 2, p. 263-270, 2010. Disponível em: https://rmmg.org/exportar-pdf/323/v20n2a18.pdf
GINEFRA, Paulo; BARBOSA, Eduardo Corrêa; BOMFIM, Alfredo de Souza et al. Distúrbios da Condução Intraventricular — Parte 2. Revista da SOCERJ, Rio de Janeiro, v. 18, n. 5, p. 397–417, set./out. 2005. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/288298153_Disturbios_da_conducao_intraventricular_parte_2
INSTITUTO BRASILEIRO DE MUSEUS (IBRAM). Memorial da Pediatria Brasileira Lincoln Freire. Cadastro Nacional de Museus. Disponível em: https://cadastro.museus.gov.br/museus/memorial-da-pediatria-brasileira-lincoln-freire/. Acesso em: 3 jul. 2026.
KROPF, Simone Petraglia. Trabalhadores, tecnologia e saúde: a construção da cardiologia como especialidade médica no Brasil (décadas de 1930 e 1940). Revista de História (São Paulo), n. 182, p. a03822, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rh/a/XdLj94ZphnDkkVngtZHCYkz/abstract/?lang=pt
MEMORIAL DA PEDIATRIA BRASILEIRA LINCOLN FREIRE. Memorial da Pediatria Brasileira Lincoln Freire. Disponível em: http://www.memorialpediatriasbp.com.br. Acesso em: 3 jul. 2026.
Créditos:
RODRIGUES, Maria Alana Alves; NOGUEIRA, Inês Santos. Objeto em Foco: Eletrocardiógrafo. In: Museu da Vida Fiocruz. Publicado em XX.
Revisão: Mayara Manhães de Oliveira e Teresa Elisa Clemente dos Santos
Publicado em 4 de novembro de 2026.


