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Informativo do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica do Museu da Vida Fiocruz      

Ano XXII - nº. 330. RJ, 12 de dezembro de 2025.     

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CS dezembro de 2025

Nem vitória, nem fracasso, a COP30, realizada em Belém de 10 a 21 de novembro, parece ter sido a COP possível, diante de uma conjuntura global complexa. Os resultados foram condensados no chamado “Pacote Belém”, aprovado pelas 195 partes integrantes da conferência. O documento contém 29 decisões consensuais, entre elas o compromisso de triplicar os valores destinados à adaptação climática até 2035 – apesar de não entrar em detalhes de como isso será feito. A participação expressiva de representantes dos povos indígenas foi considerada um marco dessa COP, realizada pela primeira vez na Amazônia, sobre a qual se dá tanta importância no debate climático. Estar em território amazônico nesse momento decisivo tem importância simbólica e sensitiva; sentir de perto a floresta e, na pele, as altas temperaturas paraenses produz – ou ao menos deveria produzir – efeito. Por outro lado, é inacreditável que os combustíveis fósseis, grandes vilões da crise ambiental, tenham ficado fora dos documentos e dos compromissos acordados. Mais uma vitória da indústria petroleira. A expectativa é que o tema volte à pauta de negociações em eventos relacionados, como o que vai ocorrer no Caribe colombiano em abril do ano que vem. Enfim, ficou para depois... Mas para divulgadores interessados em discutir agora o assunto, vale participar do segundo encontro do ciclo “Vozes da Ciência – O Brasil que queremos”, promovido pela SBPC. Neste dia 12, sexta-feira, especialistas convidados irão debater virtualmente os desafios da transição sustentável pós-COP30. Confira mais informações na seção de eventos desta edição do boletim Ciência & Sociedade. A coisa não está mesmo fácil para o setor ambiental. O Congresso derrubou os vetos de Lula ao projeto de Lei Geral do Licenciamento Ambiental. E o Marco Temporal, que trata da demarcação das terras indígenas, foi aprovado no Senado no início de dezembro. Mas a votação no STF, que tramitava paralelamente, foi postergada para o ano que vem. Haja trabalho para a divulgação científica! Pelo menos no campo da saúde, temos uma vitória clara para fechar o ano com um pouco mais de otimismo. A Anvisa aprovou em novembro a vacina de dengue produzida pelo Butantan; a primeira do mundo em dose única. Em cinco anos de ensaio clínico de fase 3 realizado com pessoas de 12 a 59 anos, o imunizante mostrou 74,7% de eficácia geral, 91,6% de eficácia contra dengue grave e 100% de eficácia contra hospitalizações por dengue. O início da vacinação e a faixa etária de aplicação ainda serão definidas pelo Ministério da Saúde, mas a expectativa é que ela já faça a diferença no próximo verão. Falando em verão, o Museu da Vida Fiocruz está com uma programação especial de férias até o fim de fevereiro. Confira na seção ‘Ações’ deste boletim algumas das atividades oferecidas e como garantir o seu ingresso. Leia também nesta edição sobre estudo que defende o protagonismo das experiências pessoais na validação de “crenças extraordinárias”, novo livro da Routledge sobre ciência e teatro com participação brasileira, bolsa incrível para jornalistas de ciência no MIT, entre outras dicas de leituras, ações, eventos e oportunidades em divulgação científica. Boa leitura e feliz ano novo! Como garante Martinho da Vila, novo Doutor Honoris Causa da Fiocruz, “a vida vai melhorar”!

 Especial Desinformação

Experiências pessoais e crenças extraordinárias – Para quem estuda desinformação, negacionismo e temas similares, uma das questões-chave para compreender tais fenômenos é: o que leva as pessoas a acreditarem no que é improvável ou mesmo comprovadamente falso? Vários estudos sugerem que a resposta está no viés cognitivo das pessoas, mostrando que elas tendem a ver intenções e inteligência por trás de eventos aleatórios, e na vontade de pertencer a um grupo – para isso, aceitariam crenças sem estarem necessariamente convencidas de sua veracidade. Eli Elster e Manvir Singh, pesquisadores de antropologia na Universidade da Califórnia, não descartam a relevância desses fatores, mas apostam no protagonismo das experiências pessoais. Em artigo de revisão publicado em dezembro na revista Trends in Cognitive Sciences, apontam três vias pelas quais a experiência pode moldar “crenças extraordinárias”: filtrando quais parecem plausíveis, em termos perceptivos – por exemplo, para quem mora no planeta Terra, ela parece plana; desencadeando novas crenças por meio de eventos anômalos e intensos emocionalmente – por exemplo, a experiência da paralisia do sono; e sendo moldada por práticas imersivas que simulam evidências sensoriais – por exemplo, uso ritualístico de substâncias psicoativas. Mesmo admitindo que nem todas as crenças extraordinárias são danosas, os autores argumentam que compreender como elas se consolidam a partir da experiência pode ajudar pesquisadores a desenvolver estratégias melhores para combater sua disseminação, em especial as particularmente danosas, como a desinformação científica e política. Acesse o artigo original, em inglês, aqui. Leia também texto de Eli Elster sobre o estudo, publicado originalmente no The Conversation e republicado em português no G1.  

Leituras

Ciência-teatro por múltiplos olhares – A Routledge acaba de lançar novo volume da série Companion, que busca apresentar o estado da arte de diferentes temas que mobilizam a academia. O assunto da vez são as interações entre ciência e teatro, quer dizer, performance, ampliando ainda mais o escopo dessas relações – que, vale dizer, remontam à Grécia Antiga. O livro The Routledge Companion to Performance and Science, organizado por Paul Johnson, Simon Parry e Adele Senior, não esgota o tema, claro, mas quase J!  São 42 capítulos, assinados por 63 autores, entre praticantes e pesquisadores, de diferentes países. Eles estão divididos em cinco partes, que englobam uma perspectiva histórica sobre a interface ciência-performance, análises do tema por disciplinas científicas representadas nos palcos, diferentes formatos explorados nessas interações e o teatro no contexto da divulgação científica. Nesta última vertente, o livro inclui capítulo sobre audiências do teatro-ciência, assinado por Emma Weitkamp, da Universidade de Bristol, e Carla Almeida, pesquisadora do Museu da Vida Fiocruz (MVF). Almeida apresenta no capítulo resultados de estudos de recepção realizados desde 2015 com os visitantes do MVF. Infelizmente, o preço do livro é pouco acessível – 240 dólares a versão impressa e 51 dólares a versão ebook –, sendo mais plausível sua aquisição institucional. Confira mais sobre o livro aqui.   

Dossiê Meninas e Mulheres na Ciência – As áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês) são vitais para o desenvolvimento nacional. No entanto, apesar dos esforços contínuos, meninas e mulheres ainda enfrentam barreiras que limitam sua participação, permanência e avanço nessas áreas. Dialogar sobre estudos e práticas educacionais que buscam refletir e transpor essas barreiras é essencial para a construção de um futuro igualitário e inclusivo. Nesse sentido, a seção Ensino de Ciências e Divulgação Científica da Revista Educação Pública acaba de lançar o primeiro volume do dossiê Meninas e Mulheres na Ciência. A publicação reúne pesquisas e relatos de experiências que abordam o tema das mulheres na ciência sob a perspectiva interseccional. Em um dos estudos, pesquisadoras do Amazonas mostram como a participação de mulheres como docentes em cursos de pós-graduação de três universidades públicas do estado é desigual em comparação à participação masculina. Do sul do país, um relato discute como o jogo pode facilitar o diálogo sobre gênero e ciência com estudantes do ensino básico. Os 24 textos que compõem a publicação estão disponíveis aqui.  

Mudanças na divulgação científica na Argentina – O que mudou na forma como os pesquisadores argentinos divulgam ciências nas últimas duas décadas? Esta pergunta norteou pesquisa realizada em 2021 por Luciano Guillermo Levin e Pablo Kreimer. Eles distribuíram um questionário online para toda a base de dados do Conicet – similar ao CNPq no Brasil –, composta então por 13.956 pesquisadores, recebendo 3.895 respostas. As perguntas, fechadas, giravam em torno das suas práticas de divulgação científica. Os resultados foram apresentados no artigo “Public communication of science by Argentinean researchers: changes and continuities in a digital world”, publicado em novembro na revista JCOM. Os autores notaram, levando em consideração as grandes mudanças tecnológicas ocorridas nos últimos anos, que essas atividades se intensificaram, mas com diferenças significativas quanto aos meios de comunicação utilizados, marcadas sobretudo pela fase da carreira dos pesquisadores consultados. Enquanto os mais jovens mostraram preferência pelas redes sociais ou espaços virtuais, por estarem mais acostumados a se comunicar por esses meios, aqueles em estágios mais avançados da carreira tenderam a ser menos ativos nesses espaços e a realizar mais conferências e a participar de entrevistas. Estes também declararam preferir atividades mais descontraídas, com mais tempo para conversar e interagir com as pessoas. O artigo completo, em inglês, está disponível aqui.

Ações

Mostra provocativa revisita Debret – Em 1834, o artista francês Jean-Baptiste Debret publicou na França 152 gravuras que produziu durante os 15 anos em que viveu no Brasil. A obra mostra a natureza, os costumes e o cotidiano do Rio de Janeiro, incluindo a violência da escravidão. Quase dois séculos mais tarde, em 2023, o sociólogo francês Jacques Leenhardt publica Rever Debret, fruto de sua pesquisa sobre a produção de Debret e as releituras contemporâneas das obras do artista francês. O livro dá origem à exposição “Debret em Questão – Olhares Contemporâneos”, mostra que apresenta 35 gravuras originais de Debret ao lado de releituras dessas obras produzidas por 20 artistas contemporâneos. Pintura, fotografia, colagem, uso de objetos e distintas abordagens de artistas de todas as regiões do Brasil, além de três estrangeiros, trazem uma rica diversidade de formas de olhar e ressignificar as imagens do passado e refletir sobre o lugar das pessoas negras e indígenas no país. A exposição conta ainda com um espaço sensorial onde os visitantes podem sentir a vibração de um samba-enredo de 1959 sobre Debret, reproduções de obras em relevo e atividades artísticas e educacionais. A mostra fica em cartaz até 17/5 de 2026 no Museu do Ipiranga da USP, de terça a domingo, das 10h às 17h, com entrada gratuita. Saiba mais aqui. Confira aqui a programação.  

Ingressos gratuitos e muita diversão no Museu da Vida Fiocruz – Até 28/2, o MVF estará em temporada de férias, com atividades especiais, como peças teatrais, oficinas educativas, jogos e exposição, além das atrações queridas como o Castelo Mourisco, Trenzinho da Ciência, Parque da Ciência e Pirâmide. Durante esse período, o museu funcionará em horários especiais: de terça a sábado, das 10h às 16h. Para visitar o MVF, todos os visitantes (incluindo grupos com mais de dez pessoas) deverão retirar ingressos (gratuitos) via Sympla. Saiba mais.

Eventos

Vozes da Ciência Pós-COP30 – A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) promove nessa sexta-feira, dia 12/12, às 10h, o segundo encontro do ciclo “Vozes da Ciência – O Brasil que queremos”, abrindo espaço para uma discussão qualificada sobre como a ciência pode orientar caminhos mais sustentáveis, democráticos e socialmente justos para o Brasil. Com transmissão ao vivo pelo canal da SBPC no YouTube (youtube.com/canalsbpc), terá como tema “Clima, Biodiversidade, Energia e Segurança Alimentar: Desafios da Transição Sustentável Pós-COP30”. Conheça os participantes e a programação completa

Oportunidades

Pesquisa do ICOM quer ouvir você!' – O Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus (ICOM Brasil) aguarda a sua participação na pesquisa Revisitando Vozes. A iniciativa visa aprofundar a compreensão sobre a realidade dos museus no Brasil a partir do olhar e das experiências de diferentes públicos. Para contribuir, basta responder um questionário on-line, o que leva cerca de 15 minutos. A participação é anônima e protegida pela Lei Geral de Proteção de Dados. Acesse aqui.

Bolsas para jornalistas de ciência – Todos os anos, o Programa Knight de Jornalismo Científico do MIT oferece bolsas acadêmicas para 10 jornalistas especialistas na cobertura de ciências de todo o mundo, oferecendo-lhes a oportunidade de explorar ciência, tecnologia e a prática do jornalismo, além de estudar em algumas das principais universidades do mundo. Vários ótimos jornalistas brasileiros já passaram pelo programa. As inscrições vão até 16/1. Saiba mais.

 
Pós-graduação em CTS  – O Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) está com inscrições abertas até 26/1 para o processo seletivo de 2026. São 23 vagas para mestrado e 19 vagas para doutorado, distribuídas nas três linhas de pesquisa do programa: Dimensões Sociais da Ciência e da Tecnologia; Gestão Tecnológica e Sociedade Sustentável; e Linguagens, Comunicação e Ciência. Pra mais informações, clique aqui.

 

 

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Ciência & Sociedade é o informativo eletrônico do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica do Museu da Vida (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz). Editores de Ciência & Sociedade: Carla Almeida e Marina Ramalho. Redatores: Luís Amorim e Rosicler Neves. Projeto gráfico: Barbara Mello. Informações, sugestões, comentários, críticas etc. são bem-vindos pelo endereço eletrônico <Este endereço de e-mail está sendo protegido de spambots. Você precisa habilitar o JavaScript para visualizá-lo.>. Para se inscrever ou cancelar sua assinatura do Ciência & Sociedade, envie um e-mail para <Este endereço de e-mail está sendo protegido de spambots. Você precisa habilitar o JavaScript para visualizá-lo.>.     

  

* A seção Especial Desinformação é uma iniciativa do projeto “O desafio da desinformação em saúde: compreendendo a recepção para uma melhor divulgação científica”, contemplado pelo Programa Proep 2022, da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e do CNPq.

 

Publicado em 15 de outubro de 2025.

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