Por Julianne Gouveia, Kelly Toledano, Milena Januário, Renata Bohrer e Teresa Santos

Na manhã desta terça-feira, 27 de outubro, teve início a 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) na Fiocruz, com o tema central “Ciência delas”. A cerimônia de abertura reuniu o público no Auditório do Museu da Vida Fiocruz, no campus de Manguinhos, no Rio de Janeiro. Voltado a todos os públicos, o evento contou com intérprete de Libras e transmissão ao vivo pelo YouTube.
A mesa institucional de abertura reuniu Milena Monteiro, coordenadora de produção desta edição da SNCT e produtora do Museu da Vida Fiocruz, Josiane Kunzler, coordenadora executiva da 23ª SNCT na Fiocruz e educadora do Museu da Vida Fiocruz; Cristiane Sendim, diretora-executiva da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec), Marly Cruz, vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz (VPEIC/Fiocruz), Cristina Araripe, coordenadora de Divulgação Científica da Fiocruz e Diego Bevilaqua, vice-diretor de Patrimônio Cultural e Divulgação Científica da Casa de Oswaldo Cruz (VDPCDC/COC/Fiocruz).
Emocionada, Milena Monteiro apresentou brevemente a programação e destacou o empenho da equipe na realização do evento. Para Josiane Kunzler, a temática desta edição representa uma oportunidade importante para ampliar o debate sobre a participação de meninas e mulheres na ciência. “Essa é uma oportunidade única para formação integral e crítica do cidadão, focando a relação de gênero e saúde. Enquanto educadora museal, espero que a gente e o público saiamos desse evento com mais perguntas que respostas, com muitas proposições e muitas inspirações em prol da equidade de gênero na ciência e na sociedade”, afirmou Kunzler.
Ecoando falas também de Cristina Araripe e Cristiane Sendim, Marly Cruz reiterou a produção científica feminina como ferramenta de mudança, capaz de fortalecer processos democráticos: “Nós temos que valorizar muito as mulheres neste debate. Até porque esta sensibilidade pode nos ajudar a fortalecer a democracia, compartilhamentos mais equânimes de conhecimento e ampliar mais o acesso. É por meio da divulgação científica e da popularização da ciência que a gente amplia o acesso à educação e a oportunidades de transformação social. Por isso deixo aqui um viva à democracia, viva à ciência, viva ao SUS e viva à Fiocruz!”, declarou.
Em clima de animação e esperança com o resultado do pleito eleitoral, que reelegeu o presidente Luis Inácio Lula da Silva, um dos responsáveis pela iniciativa que instaurou em 2004 a criação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, Diego Bevilaqua enfatizou a importância de aproximar a produção científica das necessidades da população. “Nenhum país no mundo de hoje consegue produzir justiça e riqueza sem um investimento importante em ciência, sobretudo, uma ciência que olha para as necessidades da população (...). A própria SNCT faz parte dessa política de tornar a ciência mais engajada com a realidade social brasileira”, afirmou.
Após a mesa institucional, o público acompanhou a premiação do Concurso Portinho Livre de Literatura Infantojuvenil. Em sua 4º edição, o Concurso Portinho Livre de Literatura Infantojuvenil teve como grande vencedora a estudante pernambucana Jennifer Yorrahra da Silva França (de 16 anos de idade), que recebeu o prêmio pela obra 'Minha Maria', texto dedicado à sua mãe. A jovem concorreu com outros 715 estudantes de diferentes municípios brasileiros, que participaram da iniciativa com trabalhos sobre o tema “Quem cuida de quem cuida? Cuidado e desigualdades no Brasil”. Os melhores trabalhos foram eleitos por uma banca formada por profissionais da Fiocruz e serão publicados em pela Portinho Livre. A ação é uma iniciativa do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz), com incentivo da Fundação de Apoio à Fiocruz (Fiotec) e que integra o projeto SUS nas Escolas.
Mesa destaca trajetórias femininas e diversidade

Na sequência, a mesa de abertura dedicada ao tema central da 23ª SNCT trouxe ao debate diferentes experiências e perspectivas sobre a presença das mulheres na ciência, os desafios à inclusão e a importância das políticas de diversidade.
A bióloga Kamilla Souza, diretora da Rede Brasileira de Neurobiodiversidade (RBNB), apresentou seu trabalho de pesquisa com cérebros de golfinhos, baleias e outros animais. Ela explicou que o estudo da neurobiodiversidade é fundamental para compreender como o cérebro se organizou ao longo da evolução. Ao compartilhar sua trajetória, destacou que a necessidade de estabelecer parcerias entre cientistas e conectar instituições de pesquisa impulsionou a criação da RBNB. “Além dos caminhos tradicionais, é importante ter mulheres construindo novas fronteiras na ciência”, ressaltou.
Graduada em Letras e Pedagogia, Joyce Alves da Silva, atual pró-reitora de Ações Afirmativas e Assuntos Estudantis da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), compartilhou sua experiência na construção de políticas institucionais de inclusão. Em 2021, ela se tornou a primeira mulher trans a ocupar o cargo de pró-reitora em uma universidade pública brasileira. Durante sua apresentação, Joyce detalhou o processo de criação da Comissão Permanente da Política Institucional pela Diversidade, Gênero, Etnia/Raça e Inclusão (CPID) da UFRRJ, além de apresentar outras ações afirmativas desenvolvidas ao longo de sua gestão.
Marly Cruz, vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, também compartilhou aspectos de sua trajetória acadêmica. Psicóloga, especialista em Saúde Pública, mestre e doutora em Ciências da Saúde, ela refletiu sobre os obstáculos enfrentados ao longo da carreira e sobre a importância de ocupar espaços de decisão para promover transformações institucionais. “Quando ocupamos espaços, estamos possibilitando mudança de estrutura”, destacou.
A sessão foi mediada por Ana Carolina Gonzalez, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Público e de Avaliação em Museus (NEPAM) do Museu da Vida Fiocruz.
Inauguração no Parque da Ciência
Em clima de muita emoção, a equipe do Museu da Vida Fiocruz e o público da SNCT participaram da cerimônia de inauguração do Espaço Memória Mauricio Figueiredo, no Parque da Ciência.
Luís Amorim, chefe do Museu da Vida Fiocruz e coordenador geral da SNCT 2026 na instituição, destacou a importância da homenagem. O espaço celebra a memória do ex-colaborador, que atuou por 15 anos no Museu da Vida Fiocruz, e resgata a história do primeiro Trenzinho da Ciência da instituição, agora instalado no gramado do Parque.
O Trenzinho começou a circular em 1999, mesmo ano de inauguração do museu, e se tornou parte da trajetória de divulgação científica da instituição. A cerimônia de inauguração contou com a presença de familiares de Mauricio Figueiredo, que participaram desse momento de reconhecimento e preservação da memória.
As atividades da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia continuaram ao longo do dia em diferentes espaços do campus da Fiocruz, com uma programação voltada à divulgação científica, à valorização das mulheres na ciência e à aproximação entre conhecimento científico e sociedade.
Um giro pelas atividades na Feira da Ciência e em outros espaços do Campus
Mais de 30 ações simultâneas integram a Feira de Ciências. Localizada no estacionamento do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), a grande tenda reuniu no primeiro dia diversas atividades, muitas com foco no empoderamento feminino na produção científica.

O Fioantar, iniciativa Fiocruz que já marcou presença em diversas edições da SNCT, apresentou um pouco da rotina das mulheres cientistas que realizam pesquisas no continente antártico. O estande trouxe equipamentos de trabalho e fotos da rotina das pesquisadoras, além de amostras biológicas. "Trazer a Antártica pra dentro da Fiocruz é um prazer, uma honra e um dever do pesquisador em compartilhar o conhecimento que a gente traz dessa região. As pessoas precisam saber que a Antártica está mais próxima do Brasil do que a gente imagina. Estar aqui é sempre uma forma da gente também levar a garotada nessa viagem junto com a gente", explica Sandra Soares, assessora da Vice-Presidência de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz (VPPIS) e integrante do projeto.
A Escola Sesc Pantanal e o Aquário Marinho do Rio (AquaRio) foram alguns dos parceiros externos que promoveram atividades que valorizam a ciência feita por mulheres. No estande do AquaRio, o público pôde participar da atividade 'Cartas para o Futuro 'Mulheres que Inspiram' e conferir exemplares biológicos que fazem parte do acervo da instituição. Para a educadora ambiental, Giovanna Sampaio, o evento é uma ótima oportunidade de trocar experiências com outros divulgadores científicos. "Estar aqui é ótimo. Trabalhando aqui, podemos conhecer novos lugares. Já estou vendo que tem vários projetos interessantes", explica.
Além da temática do universo feminino, outras unidades e laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz também apresentaram projetos de divulgação científica. Foi o caso do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/ Fiocruz), que, entre diversas ações, trouxe para a Feira da Ciência a iniciativa 'Por dentro do Sangue', com um modelo de artéria gigante. A pós-doutoranda do IOC Taiana Oliveira, que já participou de outras edições da SNCT, estava animada: "Eu gosto de participar porque aqui temos (a presença de) escolas. O objetivo do projeto é alcançar professores, fazer essa troca e também que as crianças levem material para casa. Esse network é bacana".
Fora da tenda...
No Auditório do Museu da Vida Fiocruz, a música reinou como expressão de tradição e resistência na apresentação da Orquestra popular Manoel Congo e Coral Balbina Congo com adolescentes e jovens que são alunos ou ex-alunos da Escola Municipal Herbert Moses, do Jardim América. Já no auditório do Instituto Nacional de Controle de Qualidade Em Saúde (INCQS) aconteceu a roda de conversa 'Meninas Negras na Ciência: na construção de uma ciência mais diversa", que promoveu uma troca de experiências com o público sobre a importância da presença das mulheres na ciência, abordando também o racismo e os preconceitos enfrentados por elas em suas trajetórias profissionais e pessoais. O encontro abriu espaço para reflexões sobre representatividade, diversidade e os desafios para a construção de uma ciência mais inclusiva.
Já na Biblioteca do Centro de Documentação e História da Saúde (CDHS), a contação de história "Era uma vez... Muitas cientistas" envolveu o público infantil em uma jornada divertida sobre a história de mulheres que contribuíram para diferentes áreas do campo do saber.
E tudo isso é só o começo! A programação da 23ª SNCT no campus Fiocruz Manguinhos continua até 31 de outubro.
Confira abaixo as atividades do evento no campus Fiocruz Manguinhos para os próximos dias.
Quarta-feira (28/10/2026)
Quinta-feira (29/10/2026)
Sexta-feira (30/10/2026)
Sábado (31/10/2026)
A 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia na Fiocruz é uma realização da Fundação Oswaldo Cruz. O evento conta com recursos oriundos da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec) e tem apoio da Associação Amigos do Museu da Vida Fiocruz (AMVF) e do Instituto Nacional de Controle em Qualidade da Saúde (INCQS/Fiocruz).
*Crédito das imagens: Vitor Vogel/COC Fiocruz e João Laet.
Publicado em 27 de outubro de 2026.


