Por Julinne Gouveia, Kelly Toledano, Renata Bhorer, Rodrigo Narciso e Teresa Santos
O segundo dia da 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) no campus Fiocruz Manguinhos (RJ) foi marcado por muito aprendizado e diversão. Ao longo desta quarta-feira, 28 de outubro, os estudantes, professores e público em geral puderam conferir uma programação inclusiva, plural e, claro, com foco no protagonismo das mulheres na ciência. Afinal, esta edição é sobre elas!

O roteiro cultural incluiu oficinas, jogos educativos, exposições e muito mais! A roda de conversa “Ciganos: nossas vidas, nossas culturas, nossa saúde”, promovida pelo Coletivo Ciganagens, apresentou aspectos da cultura, das tradições e das questões de saúde dos povos ciganos. Um dos responsáveis pela atividade, Aluísio de Azevedo destacou que por muito tempo os povos ciganos foram invisibilizados na história e sofreram processos de apagamento, além de enfrentarem até hoje desafios como o racismo e as dificuldades de acesso à saúde. “Nós temos entre 500 mil e 1 milhão de pessoas ciganas no Brasil, espalhadas por todos os estados brasileiros. A gente faz parte da história do Brasil”, afirmou. Ele também ressaltou o reconhecimento oficial do grupo como integrante dos povos tradicionais pela Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT), instituída em 2007. “É importante combater o preconceito, os estereótipos e acolher as pessoas ciganas”, reforçou.
A programação também abriu espaço para a inclusão e o respeito às diferenças com a oficina de combate ao capacitismo, promovida pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz). Voltada a estudantes do ensino médio, a atividade utilizou um bingo de pistas em linguagem simples para estimular a reflexão sobre o capacitismo e a diversidade humana.
Durante a ação, Carina Barbosa, uma das responsáveis pela atividade, compartilhou suas vivências com os jovens participantes. “Sou uma mulher com deficiência e, na minha época de escola, não havia muito essa discussão. Foi quando sofri mais bullying, e isso impactou minha vida”, relatou. Ela destacou ainda o engajamento dos estudantes com o tema: “Me chamou atenção como eles se colocaram como pessoas que estão aprendendo, entendendo que há diferença no tempo de aprendizagem, no corpo, na forma como se ama e como se expressa".
Já na oficina 'Uma Só Saúde: descobrindo as conexões do território', promovida por pesquisadores do Laboratório de Informação em Saúde (LIS) e do Programa de Computação Científica (PROCC) do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT/Fiocruz), os adolescentes foram estimulados a refletir sobre aspectos relacionados ao território e à saúde. Divididos em grupos, os jovens receberam imagens de uma cidade e de seres vivos variados, desde bactérias, plantas, insetos até mamíferos. Eles então tiveram que indicar locais onde os diferentes seres vivos poderiam ocorrer. Na sequência, foi a vez de localizar alguns problemas socioambientais como queimada, desmatamento, adoecimento, entre outros. A ideia foi construir conexões sobre os temas de forma coletiva.
A arte também marcou presença na programação. A professora Mariana Barros apresentou a exposição “Ciência Delas: Mulheres que Transformaram o Mundo”, composta por estandartes produzidos por 17 estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental da Escola Sesc Pantanal (uma das instituições parceiras da 23ª SNCT na Fiocruz). As pinturas, feitas com urucum sobre tecido, retratam mulheres que marcaram a história da ciência, como Marie Curie, Nise da Silveira e Tu Youyou, cientista chinesa laureada com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2015.
Professora de artes da Escola Sesc Pantanal, em Poconé (MT), Mariana destacou a importância de aliar o acesso ao conhecimento científico à participação ativa dos estudantes: “Para a gente, é uma grande oportunidade para que os estudantes tenham acesso ao conhecimento sobre ciência, mas também se vejam como protagonistas nessa temática, como pesquisadores e criadores”.
Atrações da Feira da Ciência promoveram interação e despertaram a curiosidade

Nesta quarta-feria (28/10), centenas de estudantes que visitaram a Feira da Ciência puderam interagir com vários jogos, conehcer cientistas e diferentes linhas de pesquisa e até tirar uma selfie com o Zé Gotinha!
No estande “DIVA: Descoberta e Inspirações de Vozes Ativas das Mulheres na Ciência”, o Laboratório de Imunologia Clínica do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) apresentou a trajetória de quatro cientistas e suas descobertas por meio de caixas-surpresa, jogos da memória e óculos de realidade virtual. A atividade também convidou o público a refletir sobre a evolução da participação feminina na ciência, do apagamento histórico ao protagonismo. Entre as referências apresentadas, estava Hipátia de Alexandria, matemática e filósofa da Antiguidade, reconhecida como uma das pioneiras na história das mulheres na ciência.
Para a pesquisadora Ana Cristina Nogueira, participar da SNCT é uma oportunidade de aproximar a ciência das novas gerações. “Acho muito bom estar aqui, porque é uma forma de divulgar nosso trabalho, chegar a uma geração mais nova e mostrar como é legal fazer ciência. É muito interessante chegar a um público que ainda não se definiu. Essas feiras contribuem muito para isso”, afirmou.
A história das mulheres cientistas também foi tema de um jogo de cartas desenvolvido pelo Serviço de Educação do Museu da Vida Fiocruz. Na atividade “Mulheres na Ciência ao longo dos séculos”, os participantes foram convidados a descobrir invenções e descobertas realizadas por mulheres de diferentes épocas. O conteúdo foi inspirado em matérias publicadas no Invivo, site de divulgação científica voltado à comunidade escolar e ao público interessado em ciência, que recebe quase 1 milhão de acessos por ano.
Para Tereza Costa, educadora do Museu da Vida Fiocruz e editora de conteúdo do Invivo, a atividade é uma oportunidade de ampliar o conhecimento sobre a contribuição feminina para a ciência e estimular a reflexão sobre a importância de preservar direitos conquistados. “É extremamente importante que pessoas de todas as idades, sobretudo os jovens, conheçam um pouco da história das mulheres. Precisamos estar alertas para não perder esses direitos. Em alguns casos, percebo também que as pessoas ficam surpresas ao descobrir o papel das mulheres em diversas invenções e descobertas, desde a pré-história, porque há um apagamento sistemático da contribuição feminina na ciência”, explicou.
Presente em praticamente todas as edições da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) também levou diversas atividades à Feira da Ciência. As atrações da unidade homenagearam cinco pesquisadoras da instituição: Celina Turchi, Elena Caride, Maria da Luz Leal, Marilda Siqueira e Valdiléa Veloso.
Jogos como "Roleta dos Vírus" e "Fato ou Fake" estimularam os estudantes a refletir sobre vacinas e vírus, além de reforçar a importância da informação científica no enfrentamento à desinformação e ao negacionismo.
Já a Fiocruz Mata Atlântica (FMA) levou ao Campus Fiocruz Manguinhos um pouco do trabalho desenvolvido em sua unidade, localizada em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O estande reuniu vídeos, o jogo Tamo Junto, sobre comunicação não violenta, e uma exposição sobre a fauna e a flora do bioma Mata Atlântica. A iniciativa também promoveu a visita de grupos de estudantes do território onde a unidade está inserida. “É sempre uma alegria poder plantar uma sementinha no coração dos estudantes, ainda mais neste momento de fake news e negacionismo. Temos que trabalhar a ciência de forma lúdica, em prol da vida”, explicou Isis Breves, proponente da atividade.
Já parou para pensar como era para uma mulher fazer ciência entre 1930 e 1960 no Rio de Janeiro? O jogo "Trajetórias nas Ciências: histórias de mulheres cientistas", desenvolvido por Daiane Rossi, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), e por sua orientanda Clara Andrade, estimulou o público da Feira a responder essa pergunta de forma lúdica e divertida. "O jogo contém alguns obstáculos que foram baseados em situações verdadeiras, principalmente, na trajetória da cientista Dyrce Lacombe, que foi entomologista da COC/Fiocruz", explicou Clara. Ao longo da partida, os visitantes enfrentam diferentes desafios, por exemplo, a falta de faculdade nos anos iniciais da linha do tempo, bem como questões de gênero como a resistência do pai em permitir que a filha fizesse vestibular.
Outras atividades da Feira da Ciência também apresentaram trajetórias de cientistas, entre elas, a atividade 'Detetives da ciência', também da COC/Fiocruz, e a 'Ciência Delas: Protagonistas que moldam a ciência', da Responsabilidade Socioambiental de Bio-Manguinhos (Somar). Na primeira, o público recebia pistas que ajudavam a identificar cientistas. Já a segunda atividade trouxe um jogo da memória com imagens de várias pesquisadoras. Os jovens Fernanda Vitória e Pedro Eduardo Gomes da Silva, uns dos responsáveis pela atividade, contaram que conversaram com algumas das cientistas incluídas no jogo. "Vimos a história de vida delas e o que aconteceu com elas. Foi uma experiência admirável", destacou Pedro.
A diversidade de atividades e a participação dos estudantes também foram destaque para Vanessa Oliveira, orientadora educacional do Colégio Estadual Madre Tereza de Calcutá, que visitou a Fiocruz pela primeira vez com um grupo de alunos. “Trouxemos os alunos sem problemas, e eles estão gostando muito. Foi até difícil tirá-los da Tenda porque estavam bem entretidos. O teatro também foi maravilhoso. Pensei que eles fossem ficar mais contidos por serem adolescentes, mas até no debate sobre o Outubro Rosa foram muito participativos. Estou muito grata”, comentou.
A experiência reforçou o papel da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia como espaço de encontro entre ciência, educação e sociedade, aproximando os jovens da produção científica e mostrando que o conhecimento pode ser construído de forma participativa, inclusiva e divertida.
A 23ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia na Fiocruz é uma realização da Fundação Oswaldo Cruz. O evento conta com recursos oriundos da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec) e tem apoio da Associação Amigos do Museu da Vida Fiocruz (AMVF) e do Instituto Nacional de Controle em Qualidade da Saúde (INCQS/Fiocruz).
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*Crédito das imagens: Teresa Santos e Rita Alcantara
Publicado em 28 de outubro de 2026.


